Há um sítio afortunado onde não se corre para comprar o pão, mas para construir castelos de sonhos. Um sítio possuidor de um dom agregador especial. O dom é precisamente isso: “nada de mais”, “o instinto”, “uma dádiva divina” e, lembrando outros termos, esse dom é “aquele algo mais”, “o que não se pode explicar, “aquilo que se sabe que há, mas não se sabe o que é”. Dizem uns que são os ares dos pinheiros mansos, outros a protecção divina de S. Sebastião, digo eu, a amizade sincera de quem tudo dá sem pedir nada em troca.

No lugar de que vos falo, há coisas bonitas: é a lembrança, a saudade e a força de alguém, que dali saiu um dia, ou assim acredita, desconhecendo que há memórias que nunca se apagam. As fotografias que forram as paredes não servem só para recordar, mas para sentirmos aqueles que não podendo cá estar, afinal nunca nos deixaram. Nestes corredores, os meninos do S. Sebastião passam sempre espavoridos mas, num breve soslaio às glórias passadas, suspiram pelos mesmos voos daqueles falcões imemoriais. Aqui sente-se o ar emanado dos olhares de meninos felizes, dos sorrisos dos traquinas e sentimos a energia que transborda dos corações de meninos em que os sonhos são reais.

Matilde Rosa Araújo, professora e poetisa, descreve essa magia assim:

Os meninos

Que jogam à bola na minha rua

Jogam com o Sol

E os pés dos meninos

São pés de alegria e de vento

A baliza uma nuvem tonta

À toa

Na luz do dia

E eu olho os meninos e a bola

Que voa

E oiço os meninos gritar Go…o…lo!

E não há perder nem ganhar

Só perde quem os olhos dos meninos

Não puder olhar.

Felizmente, já não é nos campos de várzea, nos terrenos baldios, nas estradas ou, até, nos campos pelados que os jogos começam aos cinco e acabam aos dez. As balizas já não são tijolos, adobos ou pedras meticulosamente distanciadas umas das outras. Perdeu-se a anarquia das regras muito próprias de quem só queria chutar uma bola, mas felizmente não se perderam as fantasias e, por isso, podemos ver, todos os dias da semana, os meninos do S. Sebastião a viver os mesmos sonhos que só a pureza de uma criança pode viver.

Para estes meninos não há passado nem futuro, só o presente… e o presente ali é eterno!

Paulo Rei Figueiredo, 19 de Setembro de 2010