A gaveta de cima e o armário dos fundos

 

Sempre que a política se infesta de pessoas que acreditam que o ter vale mais do que o ser e o usar vale mais que o servir, que enganar os outros é um ato de esperteza e é apresentado como ato de inteligência, a Democracia corre vários riscos.
Estar na política, o estar para ter e usar e não o estar para ser e servir, destrói e corrompe a sua função de transformar interesses individuais em coletivos. A política fica cada vez mais desacreditada e as assembleias representativas um estorvo à governação de um poder que se torna oligárquico e déspota.
O princípio da corrupção democrática começa quando o poder deixa de ser da confiança do voto e passa a ser exercido por conveniência pessoal, quando o executivo se torna fiscalizador de si mesmo e o diálogo entre as instituições democráticas inexistente para quem exerce o poder e os interesses individuais se sobrepõem aos coletivos.
Quando se verificam estes pressupostos deve soar o alarme a todos aqueles que acreditam nos princípios da democracia representativa.
Vejamos mais exemplos.
Se um eleito viola os princípios que levaram a que os cidadãos nele votaram, demonstrando que o ter vale mais do que o ser e o usar vale mais que o servir, temos um sinal de podridão e corrupção democrática.
Se um eleito acumular poderes executivos e fiscalizadores, demonstrando que o ter vale mais do que o ser e o usar vale mais que o servir, temos um sinal de podridão e corrupção democrática.
Se alguém assume um cargo de candidato, correndo o risco de o vir a desempenhar a qualquer momento, entretanto assumir um cargo de funcionário desse órgão, demonstrando que o ter vale mais do que o ser e o usar vale mais que o servir, temos um sinal de podridão e corrupção democrática.
São sinais a mais. Os suficientes para ofender 42 anos de democracia.
Um célebre filósofo do séc. XX, Popper, que fez um imenso tratado sobre a falsidade disse, passo a citar, “não somos democratas porque a maioria está sempre certa, mas porque as instituições democráticas, estão enraizadas em tradições democráticas, princípios e valores que devem ser sempre defendidos”, fim de citação.
Jamais devemos esquecer que a democracia, como simples escolha da maioria, pode ser apenas a votação entre dois lobos e uma ovelha sobre entre os três decidir o qual iria ser servido para o jantar.
A democracia é muito mais que isso.
A propósito dessa visão distorcida da democracia, assistimos todos incrédulos áquilo a que podemos denominar da novela dos pleonasmos com dois episódios ou, como diziam antigamente, uma borrada em dois atos. O pleonasmo da renúncia à renúncia, mistério que qualquer aluno do primeiro ano de direito teria resolvido e decidido num minuto. Depois, outro pleonasmo, num segundo episódio da vereadora que se tornou independente até dos independentes, ou seja, passou a defensora do seu interesse pessoal e disse-o no jornal. Situação que, infelizmente, hoje em dia não é nada raríssima.
Já diz o povo na sua sabedoria: A muitos o bem faz mal.
Para terminar.
Quem quiser transformar a democracia, ignorando o diálogo entre as forças eleitas, procurando ovelhas para decidir, pode escolher e usar à vontade, mas lembrem-se: nesta coutada há outra estirpe de lobos e até há alguns caçadores de lobos que estão muito mais atentos que alguns julgam.
Para já ficamos com os exemplos negativos e que sirvam de aprendizagem.
Vamos acreditar todos que isto é apenas inexperiência de exercício dos cargos ou desconhecimento da missão a que foram confiados. Não queiram ser oligárquicos e déspotas. Um arranque cuja trajetória deve ser corrigida, para bem do nosso Concelho e do exemplo democrático que queremos deixar às gerações futuras.
Por isso, peço que retomem o caminho do bem, do bem ser e do bem servir, em diálogo institucional e respeito pelos princípios morais e éticos enraizados na nossa democracia. Se assim o fizerem tenho a certeza que farão um excelente mandato.
Ver o bem e não praticá-lo é sinal de medo e de cobardia.

 

Paulo Rei Figueiredo, 28 de Dezembro de 2017

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